Viver de um fôlego

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Denominaram-no como uma mistura de Picasso com o homem da Marlboro. A arte e o engenho conluiados com a ruralidade de forma e de substância a que não faltavam adereços como as calças de ganga, os cigarros e o whisky, tipicamente americanos.  Jackson Pollock era a prova viva de que um “cowboy” podia singrar, igualmente, no restrito mundo da arte.

Sempre a debater-se com o vício antigo da bebida, Pollock atingiu o seu auge criativo no início dos anos 50 do século passado, quando, por dois anos consecutivos, se conseguiu manter sóbrio. Quem teve o privilégio de o ver pintar, julgou estar diante de um demiurgo da magia. Enleava-se com os pincéis e com as tintas numa espécie de dança espiritual que realizava à volta da tela que colocava habitualmente no chão.

O estábulo que ele transformara em estúdio de pintura transformou-se num local de culto criativo, onde o artista entrava numa sorte de exaltação tal que perdia completamente a noção do tempo. Os gestos que ajudavam a espalhar as tintas sobre a tela, desmultiplicavam-se em gotejos, salpicos, derramamentos, pingos, numa contínua sessão de dança frenética como se o fizesse à volta de um totem. Por vezes, substituía o pincel por um pau, com o qual se tornava mais fácil lançar a tinta sobre a tela distendida no solo, não desprezando ainda as possibilidades de juntar à representação pictórica outros materiais como areia, pedaços de vidro partido, cordel e outros ainda mais estranhos.

Não foi fácil lidar com as críticas que se fizeram ouvir acerca da sua obra. Confrontaram-no com a ideia do caos, questionaram-no acerca da sua técnica de pintura, acusaram-no de ser rudimentar quanto ao resultado final das suas representações, mas, contra tudo e contra todos, os seus quadros revelaram-se entusiasmantes junto das classes sociais dominantes americanas e Pollock tornou-se um artista muito apreciado em Nova Iorque.

Quem tenta decifrar a sua obra, pode, muito legitimamente, sentir dúvidas quanto ao que aos nossos sentidos, através do nosso olhar, nos podem transmitir. A amálgama de cores, de escorropichos, de linhas cruzadas e de todos os efeitos latentes, podem suscitar inúmeras dúvidas. No fundo, o que nos pedem é que, em vez de colocar o foco na realidade que se vê, possamos relacioná-la com o homem que a produziu. Quem o conseguir realizar, ficará com uma perspectiva cabal do individualismo, do carácter rebelde e do sonho de liberdade que está patente em cada quadro de Pollock.

Precisamente no seu momento de maior apogeu, Pollock cometeu um erro: depois de dois anos de completa privação da bebida não resistiu ao apelo de um “bourbon”. Tomou-o como aperitivo de um jantar que ele e sua mulher haviam oferecido a um grupo de amigos. Antes de se sentarem à mesa, o artista, completamente embriagado, puxou pela toalha de mesa onde haveriam de se sentar, atirando ao chão pratos, copos e o perú que havia sido confeccionado para o evento. Salvou-se a calma olímpica com que a sua mulher encarou o sucedido. Olhou para os convidados e, com o ar mais sereno do mundo, anunciou: “o café será servido na sala de estar”.

A partir desse dia, o “pintor cowboy” entrou numa espiral de auto-destruição. Entregou-se viralmente à bebida, nunca mais produziu obras de sucesso e morreu num acidente de viação, cinco anos mais tarde, porque conduzia plenamente embriagado.

Creio que apenas poderíamos entender cabalmente o espírito inquieto deste peculiar artista se cada um de nós pudesse ser, como diz Abrunhosa, um dia o seu olhar.

Adérito Vilares