Sintomas da desconfiança

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Sintomático, assintomático, sintomático…dito assim, esta cadência de palavras que chove sobre nós por entre as mil vias de comunicação ao nosso dispor, pode ser percepcionada, praticamente, como que uma batida do coração. 

Descompassada, arrítmica, desconciliada com os tempos que desceram até nós, o tic-tac da angústia e da incerteza, provoca-nos e coloca o epicentro da nossa existência no campo raso da incompreensão. Quem devemos seguir? Quem tem razão? E se não correr bem? Quanto tempo vai durar? Quem sou eu? O que faço aqui?  

Desistir, desanimar, olhar para a toalha e para o chão como se ambos se pertencessem, não é solução. Se nos dissuadirmos de tentar entender o nosso acordar de todos os dias, ver-nos-emos num deserto qualquer, desabrigados e expostos a todos os ventos da excentricidade da Natureza. Mais do que nunca, é necessário dar provimento tanto à explicação das pequenas coisas como às de maior importância.

Nemorino, o timorato e inseguro personagem da Ópera de Donizetti, “O Elixir do Amor”, perante a indiferença da sua amada, comprou a um charlatão aquilo que julgava ser um elixir poderoso e infalível na arte da “agarração”. O precioso líquido da garrafa que adquirira não passava, afinal, de uma porção de vinho de Bordéus. 

Acreditando, todavia, que acabara de ingerir uma espécie de poção mágica, o tímido personagem sentiu-se investido de uma confiança inabalável e foi assim que conseguiu despertar o amor da sua pretendida. O excerto mais conhecido da ópera é o que dá pelo nome de “Una Furtiva Lagrima” e é o que estabelece o momento em que Nemorino percebe pela primeira vez que é correspondido. 

A vacina mais próxima de que todos necessitamos para encarar os novos incertos amanhãs é a do amor próprio e da confiança em melhores dias que, com toda a certeza, se nos apresentarão. E nem será imprescindível que nos coloquemos na posição de sermos obsequiados com uma qualquer espécie de placebo, mesmo que virtuosamente tenha a marca de Bordéus. É que há tanto Alentejo por descobrir…

Adérito Vilares