OS CAVALOS TAMBÉM SE ABATEM

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Esta película dos anos 60, realizada por Sydney Pollack e superiormente interpretada por Jane Fonda, transporta-nos para a época pós-grande depressão, altura em que os concursos de dança, com o formato de maratona, estavam muito em voga. 

A miséria humana é retratada neste filme de uma maneira crua e psicologicamente transgressora. Os pares evoluíam na pista de dança, dias a fio, sem dormir, descansando os escassos minutos que eram permitidos pelo regulamento e tomando as refeições enquanto dançavam, com o objectivo último de alcançar o prémio final de mil e quinhentos dólares. 

A dupla que se mantivesse a dançar após a desistência de todos os demais participantes seria declarada vencedora. A violência psicológica exercida sobre os concorrentes era o ponto forte da organização, que vendia bilhetes para que o público pudesse apreciar o desgaste físico e emocional que se ia produzindo ao longo da maratona dançante.

É inquietante observar, à medida que a fita vai decorrendo, o modo lento como aquilo que nos afasta da animalidade, o pensamento racional, se vai desvanecendo. Assiste-se a um verdadeiro divórcio entre o corpo e a alma, sobrando um quase nada, pronto a abater.

O ritmo pandémico à volta do qual somos obrigados a dançar, hoje em dia, está a tornar-se caótico, frenético, ininterpretável. Quem dirige a orquestra parece ter perdido o norte. Os músicos estão desafinados e tocam cada um para o seu público. 

A mistura de sons tornou-se um autêntico saco de gatos e deixou de ser possível a qualquer apreciador manifestar o seu desagrado pela música agressiva e atonal que se vai escutando, sem que se levantem mil vozes com opinião absolutamente contrária. 

Há pares e pares. Uns vão deixando a pista de dança e jamais a ela voltarão. Outros, obrigados a um descanso mais prolongado, sentem que a vontade do regresso esbarra no desespero e na incerteza. Há sequelas físicas e psicológicas. 

Prometem-nos devolver o investimento que fizemos nos ingressos para assistir à performance na qual todos nós continuamos a participar. O cansaço da dúvida e a incógnita acerca do amanhã ameaçam tirar-nos o equilíbrio. 

O soalho debaixo dos nossos pés vai ficando, de hora para hora, mais escorregadio, e tememos a cada passo torcer um pé e quedarmo-nos ali mesmo, à espera de um final que ilumine a escuridão em que se transformou a sala de espectáculos. Se isso acontecer, resta-nos pensar, num rasgo de lucidez, que os cavalos também se abatem.

Adérito Vilares