O perigo dos mergulhos no Verão

331

Com a aproximação dos dias de calor, Luís Teixeira, médico ortopedista especialista em patologia da coluna vertebral, alerta os portugueses para alguns comportamentos de risco nas praias, piscinas, zonas balneares, costeiras ou fluviais portuguesas, com especial enfoque nos mergulhos que podem provocar alguns traumatismos graves, como situações de paraplegia ou tetraplagia.

O também Presidente da Associação Sem Fins Lucrativos Spine Matters pretende sensibilizar a população, sobretudo a mais jovem, a principal atingida (os jovens do sexo masculino, entre os 15 e os 30 anos, representam mais de 75% do grupo de risco de pessoas que sofre acidentes de mergulho entre Junho e Setembro), para os perigosos “mergulhos de verão” e para os cuidados que podem prevenir lesões dramáticas, estendendo o alerta a alguns desportos aquáticos como o surf, o paddle ou o bodyboard.

Os acidentes de mergulho, são a quarta causa de lesão medular, demonstrando os estudos que a sua maioria ocorre em lugares com uma profundidade inferior a 150 cm. Quando superior a 3m/s, a velocidade do impacto é suficiente para causar lesões cervicais irreversíveis. O médico explica que com alguns cuidados é possível prevenir alguns comportamentos de risco, nomeadamente, trabalhando na velocidade do impacto, na forma como se entra na água e na fiscalização mais atenta da zona do mergulho. 

As estatísticas apresentadas pelo Sistema Nacional de Saúde resumem alguns dados importantes:

  • A maioria dos acidentes ocorre durante atividades de lazer;
  • Os acidentes são mais frequentes em piscinas do que no mar;
  • 96% dos traumatismos atingem a coluna cervical;
  • 15% dos acidentados ficaram em condição de tetraplegia;
  • 92% ocorrem em indivíduos do sexo masculino;
  • 85% dos acidentes acontecem entre os meses de maio e setembro.

De acordo com um estudo publicado na revista de Cirurgia Ortopédica e Traumatologica Francesa, e recordado pelo médico ortopedista, na grande maioria dos casos a vítima desconhece ou conhece mal o local em que se dá o acidente.

Na execução do mergulho a pessoa atinge cerca de 15 km/h”, esclarece o médico cirurgião ortopédico. “Contudo, quando esse mergulho é executado numa posição quase vertical, a velocidade descreve uma trajetória descendente muito veloz em direção ao fundo da piscina.  Por outro lado, e em praias com muita ondulação, as pessoas tendem a mergulhar em zonas de rebentação em que ainda têm pé, sendo frequente a postura incorreta. No momento do impacto no solo, a posição da cabeça e coluna vertical vão determinar tudo, mas antes é a análise do espaço que se torna fundamental”, alerta o especialista que não esquece também que entre 38% a 47% dos casos ocorrem após consumo de drogas ou de bebidas alcoólicas.” 

Como ocorrem as lesões em mergulho:

A) Ao mergulhar com o corpo curvado em local raso, a cabeça bate no solo.

B) Após o impacto com o solo, o pescoço recebe o peso do corpo, absorvendo o impacto e produzindo uma brusca flexão ou extensão do pescoço podendo ocasionar uma fratura ou deslocamento de vértebra cervical, (geralmente a C5 ou a C6), que pode resultar em trauma da medula espinhal.

C) A fratura ou luxação das vértebras comprime a medula responsável pela transmissão das ordens vindas do cérebro para todas as regiões do corpo humano.

D) A compressão da medula causa uma necrose (morte dos tecidos e células da região atingida), o que impede a transmissão dos estímulos vindos do cérebro e também da sensibilidade dos membros

E) A pessoa fica paralisada e não sente os seus membros. De acordo com o grau da lesão da medula, o mergulhador pode ficar tetraplégico, (sem movimentação nos braços e nas pernas) ou paraplégico, paralisado apenas nas pernas.  

E porque são os homens mais suscetíveis a este tipo de lesões? Por um lado, pela sua natureza anatómica, mas por outro por uma maior prevalência para adotarem comportamentos irresponsáveis em atividades náuticas. “Pela sua estrutura biomecânica, a coluna cervical é naturalmente mais vulnerável ao trauma que outras regiões da coluna vertebral.

Se pensarmos que o homem médio pesa normalmente 80kg e chega a atingir os 15km/h na execução do mergulho, a força que é exercida sobre esta estrutura sensível é simplesmente insustentável. A maioria das fraturas ocorre precisamente entre a 5ª e a 7ª verticais, mas em função da velocidade e profundidade pode atingir outras vértebras com consequências ainda mais graves” adianta o médico, especialista em patologia da coluna vertebral, que há vários anos alerta para os riscos que a época balnear pode representar para a coluna dos portugueses, baseado em dados de um estudo publicado na revista de Cirurgia Ortopédica e Traumatologica Francesa em 2013.

Nesta altura em que as temperaturas sobem e os portugueses começam a ir a banhos, há outro número importante a reter: 90% destes acidentes acontecem entre junho e setembro, e se um terço deles acontece em praias, são também extremamente frequentes os acidentes em piscinas, lagos, ribeiras ou barragens.

“Nove em cada dez acidentes acontecem num local com profundidade inferior a 1 metro e meio, vindo-se a revelar na maior parte dos casos que a vítima conhecia mal as características do local onde estava a fazer os mergulhos”, explica Luís Teixeira.

“Ora em sítios de baixa profundidade é precisamente onde há maior probabilidade de desenvolver lesões. O tipo de danos depende de vários fatores: da posição da cabeça e da coluna vertebral no momento do impacto, do peso do indivíduo, da velocidade e da trajetória do mergulho, etc. Mas o processo traumático é quase sempre o mesmo – movimentos extremos de hiperextensão ou hiperflexão, enormes forças compressivas que não são distribuídas de forma homogénea e lesões cervicais de enorme gravidade. Mas tudo isto é aumentado pelo tipo de comportamentos que se têm antes mesmo de entrar na água. Em 40% a 50% dos casos, a vítima tinha consumido álcool ou drogas antes do acidente, sendo que 16% dos acidentes ocorrem durante a noite, onde as condições de visibilidade são ainda mais reduzidas. Isto demonstra que muitas pessoas não estão cientes da seriedade do tipo de lesões que podem resultar de brincadeiras muitas vezes inocentes, mas que podem ter um fim trágico”, acrescenta o médico.

Por isso e no sentido de contribuir para a redução destas estatísticas alarmantes, o especialista deixa aos portugueses um conjunto de conselhos que “pretendem apenas ajudar a gerir os riscos e assegurar que as férias de Verão são verdadeiramente uma época de alegria e repouso, e que não ficam marcadas pelas consequências de gestos irrefletidos.”

Cuidados a ter antes de mergulhar:

1.  Avalie bem a profundidade e o local: Mergulhos em locais com águas pouco profundas, ou onde a visibilidade não permite apurar se há rochas, troncos, bancos de areia ou outros obstáculos para realizar um mergulho seguro são altamente perigosos. Conheça a profundidade do local onde vai mergulhar e dê preferência às águas cuja profundidade tenha, no mínimo, o dobro da sua altura; Se estiver no mar, antes de mergulhar, “teste” a profundidade entrando progressivamente pelo seu pé. Tenha atenção também a locais demasiado altos, pois são igualmente perigosos.

2.  Explorar e examinar: Mesmo que conheça o local onde vai mergulhar, a paisagem natural muda regularmente, com as correntes, com as marés e com diversos fatores, daí que deva sempre examinar com atenção o local onde vai mergulhar antes de o fazer. Se vai para um sítio que não conhece, procure avaliar antes o local. Pode até falar com quem costuma frequentar o local e com nadadores salvadores. É importante também que respeite as placas de sinalização e que mergulhe numa zona bem iluminada. Mergulhos à noite são extremamente perigosos.

3.  Evite brincadeiras:  Empurrões para dentro da água e outras acrobacias; Não mergulhe de costas ou em corrida – quanto mais impulso der, mais fundo será o mergulho. Não mergulhe de locais altos, de costas ou em corrida. Tenha também muita atenção aos mergulhos de pranchas.

4.  Tenha atenção à posição do seu corpo antes de mergulhar: Evite mergulhar na vertical. Procure entrar na água numa posição mais oblíqua de forma a atingir menor profundidade e velocidade. Mantenha os braços esticados e as mãos à frente, em extensão, de forma a antever o que se aproxima e a proteger a cabeça e pescoço ao longo do mergulho.

5.  Não consuma bebidas alcoólicas: Por muito que o verão traga consigo atitudes relaxadas e despreocupadas, se considera mergulhar, deve levar este conselho a sério. O seu discernimento e capacidade de avaliar as condições do mergulho, assim como a sua postura, não devem estar comprometidos nestes momentos.

Como deve reagir se assistir a um acidente de mergulho:

  1.  Chame de imediato o 112. No caso de se encontrar numa praia, chame de imediato o nadador-salvador pois terá mais competências e formação para saber reagir à situação.

  2.  Caso presencie um acidente é importante não mexer na vítima, pois sem os cuidados adequados pode haver uma lesão ainda maior. Nesse caso, certifique-se de que a pessoa está a respirar e aguarde um resgate especializado.

  3.  Coloque a vítima de barriga para cima para que possa respirar, tentando imobilizar a cabeça em linha com o tronco. Mantenha sempre a cabeça e pescoço alinhados com a coluna vertebral, numa posição estável, e não faça nenhum movimento brusco. 

Luis Teixeira termina explicando que se tratam de ocorrências que podem resultar em lesões que vão da luxação à fratura da coluna vertebral, traumatismo cranianos ou tetraplegia com incapacidade permanente. “É importante consciencializarmos toda a gente destes números, porque na esmagadora generalidade dos casos resultam pura e simplesmente de riscos desmedidos, brincadeiras que correram mal, gestos irrefletidos ou de alguma irresponsabilidade. E aquilo que é importante que as pessoas reflitam é: não vale a pena; os riscos são simplesmente grandes de mais.”