Moralismo vs Erotismo

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Deu algum brado um dos episódios da série juvenil “Destemidas”, dedicada a mulheres que se destacaram pela sua independência de pensamento e de costumes, rompendo com preconceitos e visões mais ortodoxas da sociedade. O episódio a que nos referimos e que foi objecto de feroz censura, homenageava Thérèse Clerc, uma feminista francesa que, em determinado momento da sua vida, se descobriu simpatizante do marxismo e atraída sexualmente por pessoas do mesmo género. As cenas animadas, simples e infantis, que deram suporte ao conhecimento destes factos, foram suficientes para que se erguesse um muro de irracionalidade e se pretendesse, pura e simplesmente, proibir a sua exibição.  As rupturas de comportamento em relação aos costumes instituídos numa determinada sociedade geram sempre, alguma animosidade e incompreensão.

Tamara Gorska, uma aristocrata polaca, casada com Tadeuz Lempicki, um advogado bem sucedido de Petrogrado, levava em 1917 uma vida de ostentação naquela cidade russa. Após a revolução de Outubro, e na sequência da perseguição política de que foram alvo, o casal foi obrigado a emigrar para Paris, onde perdeu todas as mordomias de que tinha beneficiado até então, pela completa impossibilidade de Tadeuz conseguir qualquer emprego. Este, que tinha passado também algum tempo na prisão, não passou incólume pela experiência, tendo-se tornado revoltado, amargo e extremamente deprimido. 

Tamara, expedita e assertiva, olhou em seu redor, para um mundo que se abria a uma nova vaga de oportunidades, onde as mulheres gozavam de um nível de liberdades nunca antes visto,   mudou o apelido Lempicki para um mais afrancesado Lempicka , tornou-se aluna da Escola de Belas Artes e, depois de se ter dedicado por algum tempo a naturezas mortas e retratos, concentrou-se em personagens como ela própria:  mulheres independentes e com espírito aberto quanto à sua sexualidade.

Depois de ter andado numa roda viva de amantes aristocráticos que se destacavam por entre a elite industrial  e artística da sociedade parisiense, incluindo o conhecido escritor Gabriele D´Annunzio, Tamara de Lempicka sentiu-se imbuída do ambiente mais libertino e selvagem de Paris, e transbordando de uma confiança sexual própria das mulheres livres e donas da sua vontade, dirigiu-se para o bosque de Bolonha, local de prostituição, com o intuito de escolher uma das profissionais como sua amante.

Viu-a ainda de longe, roliça e generosa de carnes, recolhendo as mais variadas atenções por parte dos clientes, e não teve qualquer dúvida: aquela mulher era de uma beleza ímpar e Tamara sentiu-se profundamente impressionada. Em vez de sexo, pediu-lhe que se tornasse sua modelo. Rafaela, de seu nome, aceitou de imediato a sua proposta.

A partir desse momento, o nome Rafaela passou a ser uma marca carregada de erotismo na obra de Tamara de Lempicka, visível em alguns quadros para os quais ela posou. A “Bela Rafaela”, quadro de 1927, é um exemplo ilustrativo do esplendor da carne feminina, percepcionada pelo olhar apaixonado de uma mulher livre e emancipada. Porque razão a arte e os seus apreciadores deveriam abrir mão, em nome dos costumes, daquela pele que se mexe debaixo das nossas pálpebras?

Adérito Vilares