Esquizofrenia: doença crónica

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  1. O que é a esquizofrenia?

A esquizofrenia é uma doença psiquiátrica crónica que surge no final da adolescência/início da idade adulta e que tem uma prevalência de 1% na população geral. 

Caracteriza-se fundamentalmente por uma quebra do contacto com a realidade, que se expressa habitualmente por ideias delirantes persecutórias ( o doente acha que está a ser perseguido) e alucinações auditivo-verbais, em que o doente ouve vozes que comentam a sua vida ou lhe dão ordens.

O doente frequentemente não tem qualquer crítica para esta situação, ou seja, acredita que o que lhe acontece é de facto real. A sua crença não cede à argumentação lógica.

  • Esta doença é estigmatizante?

Trata-se de uma doença altamente estigmatizante. Nos episódios inaugurais o doente fica de tal forma assustado com o que lhe está a acontecer, que se isola e modifica o seu comportamento habitual, podendo inclusivamente, e para se defender, tomar atitudes mais bizarras e agressivas. Estas atitudes assustam e afastam as pessoas que o rodeiam, o que promove o seu isolamento e a estigmatização.

  • Quais são as causas?

A esquizofrenia tem uma etiologia multifactorial: genética, psicológica e social.

80% do risco de desenvolver esquizofrenia é genético, a forma de transmissão é complexa e os genes funcionam como factores de risco e não determinantes da doença. Os factores ambientais pré-natais (complicações obstetrícas, infeções maternas, nascimento no Inverno e idade paterna avançada) contribuem para o seu aparecimento e interagem com a predisposição genética.

Estes factores juntamente com outros factores de risco subsequentes, como o atraso nas etapas de desenvolvimento da criança, os problemas de linguaguem, as dificuldades cognitivas, o isolamento social e o consumo de cannabis – que aumenta até seis vezes o risco de desenvolver esquizofrenia nos consumidores habituais –  conduzem a alterações do neurodesenvolvimento, que causam ou aumentam a vulnerabilidade individual para o aparecimento de sintomas mais tarde.

Por outro lado, os factores sociais e psicosociais como o baixo estrato sócio-económico,  o facto de viver em zonas suburbanas e de pertencer a populações migrantes de segunda geração, a existência de eventos de vida stressantes e a própria personalidade do doente (com características particulares de isolamento, instrospeção e frieza afectiva) contribuem também para o aparecimento da doença.

  • E os factores de risco?

A resposta sobrepõe-se à anterior.

  • Quais são os sintomas mais comuns associados à esquizofrenia?

Já respondido.

  • Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é exclusivamente clínico e caracteriza-se pela presença de alguns sintomas psiquiátricos nomeadamente, ideias delirantes, alucinações, discurso ou comportamento desorganizado e sintomas negativos ( por exemplo falta de vontade e incapacidade de expressar as emoções). Pelo menos dois destes sintomas devem estar presentes durante o período de 1 mês. Simultaneamente devem surgir alterações no funcionamento social/ocupacional (trabalho, relações interpessoais e higiene) desde o início dos sintomas.

  • Como é tratada a esquizofrenia?

A esquizofrenia trata-se com fármacos antipsicóticos. Actualmente existem fármacos eficazes e com menos efeitos adversos que os anteriores, os chamados antipsicóticos atípicos que controlam os sintomas da doença.

Como qualquer doença crónica o doente deverá manter o acompanhamento médico, bem como a medicação prescrita.

Um dos principais problemas no tratamento da esquizofrenia é a fraca adesão terapêutica  por parte dos doentes que frequentemente não cumprem devidamente ou interrompem  a medicação prescrita. Esta situação deve-se não só ao aparecimento de efeitos secundários indesejáveis (que devem sempre ser discutidos com o médico com o objectivo de escolher a melhor opção terapêutica- eficaz e com poucos efeitos adversos) bem como à falta de crítica para a situação patológica, ou seja o doente acha que não está doente e por isso não há necessidade de tomar medicamentos.

  • Tem cura?

A esquizofrenia não tem cura, é uma doença crónica com remissões e recaídas.

A melhor forma de prevenir a recaída é cumprir a terapêutica prescrita, manter o acompanhamento psiquiátrico e evitar factores de risco possíveis, nomeadamente o consumo de cannabis.

  • O que podem os familiares/pessoas próximas fazer para ajudar o doente?

O aparecimento desta doença numa fase da vida em que todas as expectativas estão centradas num jovem saudável e frequentemente com sucesso escolar abala profundamente a dinâmica familiar.

Nenhuma família está preparada para aceitar uma doença como esta. Frequentemente as famílias necessitam de suporte profissional para aprender a lidar com esta realidade. Sugere-se assim que procurem suporte psicológico quer a nível individual quer a nível de grupo. Só depois de compreender e aceitar a doença poderão ajudar o seu familiar.

Dra. Ana Peixinho, psiquiatra, cordenadora da unidade de psiquiatria e psicologia do Hospital Lusiadas Lisboa