Brinque com o seu filho

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A ficção dos filmes subitamente tornou-se a nossa realidade e chama-se COVID-19. Se para os adultos este paradigma obrigou a uma mudança de hábitos, atitudes, comportamento social e posturas, quanto mais para uma criança. Subitamente viram-se privados das suas escolas, dos seus colegas, das suas rotinas diárias.

Para crianças de mais tenra idade, existem três fatores absolutamente essenciais a ter em conta:

– Transmitir confiança e passar uma imagem de tranquilidade. Independentemente de como nos sentimos, é fundamental tentar manter a calma e procurar transmitir segurança. Deve ter em atenção a exposição mínima da criança a telejornais ou notícias. Qualquer informação mal percebida pode ter um impacto imenso na criança. Elas precisam de sentir que os Pais estão ali para protegê-los!

– Ter tempo para a criança. Sentar-se com tempo e calma, junto da criança e conversar com ela. Tirar-lhe todas as dúvidas que tenha sobre o que estamos a passar, tentando explicar tudo numa linguagem simples, clara e objetiva, sem a expor a demasiada informação que a possa baralhar ou assustar ainda mais.

– Por fim, e como fator determinante, as atividades diárias. E é importante que se perceba que não podemos dissociar estes três fatores. Não podemos olhar só para as atividades e ocupá-los. É preciso que percebam que os Pais estão ali junto deles com confiança, sem medos e que os vão proteger! Se tivermos as crianças tranquilas, o passo seguinte, então sim, é ocupá-los.

Existem diversas atividades que pode fazer em família sem o uso de muitas tecnologias.

– Videochamadas. É importante que, ainda que por videochamada, os vá mantendo em contacto com os seus amigos e colegas, tentando de algum modo evitar situações de ansiedade, stress e tristeza.

– Jogos de tabuleiro. Jogue com eles os antigos jogos de tabuleiro. Caso não disponha de muitos pode sempre improvisar o jogo do galo, jogo do stop (com tópicos mais simples) ou um Mikado improvisado com lápis de cor ou pequenos pauzinhos que tenha em casa.

– Fazer puzzles. Para além de melhorarem a capacidade de observação, análise, atenção e memória visual, desenvolvem a coordenação motora, entre outros benefícios.

– Cópias, composições ou desenhar letras. Os Pais podem ajudar a criança a desenhar letras, a fazer cópias ou pequenas composições, caso a criança já tenha adquirido estas competências.

– Trabalhos manuais. Numa folha, cartolina ou tela, podem fazer pinturas com guaches, pintar ou colar massinhas, fazer recortes de revistas e colagens.

– Jogar às cartas. Caso tenha um baralho de cartas em casa, pode ensinar o “jogo do peixinho”, sendo um jogo simples e com poucas cartas, também costumam aderir com alguma facilidade.

– Ioga. Com um tapete de ginástica ou algo de textura semelhante, experimente fazer com eles algumas posições de ioga.

– Origami. Ensine-os e/ou aprenda a fazer figuras de origami em papel. Na internet consegue encontrar diversas imagens com os respetivos passos a dar.

– Escrever uma carta. Pode ser a alguém especial, a alguém que está longe e sente saudades, mas que o ajude a dizer o que sente e o quanto gosta dessa pessoa. Pode também complementar com desenhos ou colar pequenos autocolantes e guardar para lhe fazer chegar quando tudo isto passar.

– Criar uma peça de teatro. Faça-o pensar na personagem que gostaria de ter na peça e escolha quem as possa representar. Reúna alguns adereços que possa precisar. Pode também jogar com marionetas ou fantoches improvisados com pequenos tecidos que tenha em casa.

– Sessões fotográficas divertidas. Usar acessórios, filtros de algumas aplicações dos telemóveis ou simplesmente fotografias de família.

– Jardim de ervas aromáticas. Faça um jardim de ervas aromáticas em pequenos vasos. É divertido, simples, fácil, relaxante e saboroso. 

– Álbuns. Podem ser de viagens, recortes ou de fotografias. Fazer um caderno de viagens, será uma maneira divertida de assinalar as aventuras da criança.

– Partilha de momentos. Recordem momentos ou episódios divertidos, que já possam ter vivido.

– Fazer jogos de mímica. Imitando expressões para o outro adivinhar do que se trata.

– Construções de legos. Promovendo a imaginação da criança.

– Jogar às escondidas com a criança. Criando maior cumplicidade com a mesma.

– Jogo da torre. Fazer uma torre com copos de plástico e fazer pontaria ao alvo com uma bola suave.

– Ver desenhos animados relaxantes. Distraem-se e criam momentos em família.

– Existe ainda um jogo interessante, e passo a publicidade, que apela a que as crianças falem um pouco de si e dos seus sentimentos. Chama-se “O Monstro das Cores” e consegue encontrar à venda em diversas lojas ou livrarias online. É um jogo que consegue trazer ao de cima particularidade curiosas em relação à perceção do mundo da criança e a maneira como o sente.

– Ouvir música. Enquanto realiza as atividades com a criança oiçam música relaxante ou divertida.

Diversões ao ar livre. Caso tenha varanda, terraço, jardim ou terrenos privados onde a criança não fique exposta a estranhos ou onde a locais onde outras pessoas possam ter estado. De forma a não se colocar em risco nem a si, nem aos mais novos. Também nestes locais pode realizar algumas atividades interessantes:

– Decalcar folhas das árvores ou plantas. Basta colocar a folha numa superfície lisa, tape-a com uma folha de papel e com cuidado, pintar por cima com lápis de cera ou de cor. As saliências, veios e texturas da folha vão ficar mais escuras e dar origem a uma bonita imagem.

– Criar comedouro para pássaros. Vai precisar de um tubo de cartão, sementes para pássaros, manteiga de amendoim para passar em cima do tubo (que vai funcionar como cola das sementes) e uma fita para segurar o tubo.

– Jogar futebol ou pequenas brincadeiras a correr atrás da criança, eles costumam adorar.

– Colorir pedras. No caso de ter jardim ou quintal privado, tentar com a criança encontrar algumas pedras que sejam passíveis de ser pintadas com marcadores ou tintas e pincéis. 

– Fazer caminhadas nos seus espaços verdes com a criança, ou até mesmo realizar com elas, ao ar livre, algumas das atividades descritas.

Em todas as atividades que realizar, e sobretudo até aos 5 anos, é importante manter as rotinas, horas de refeição, de acordar e deitar, sempre às mesmas horas (tanto quanto possível). É igualmente importante dar início, meio e fim, a cada atividade, não permitindo que estas vão ficando pendentes, embora a criança se vá cansando com mais facilidade das atividades à medida que o tempo vai passando.

Por fim, e ainda como meio de tranquilizar a criança, procure ler-lhe uma história serena antes de adormecer.

Em suma, estamos perante um teste à imaginação dos Pais, à persistência das rotinas, mas sobretudo à capacidade para lhes mostrar que estão protegidos e que as suas atividades diárias se mantêm de uma forma diferente. Talvez esta seja uma forma de lhes dar a conhecer um novo conceito de vivência em família.

Todas estas atividades desenvolvem de alguma forma o seu pensamento, a sua autonomia, a sua relação com os outros, a criatividade e imaginação, levando ainda ao desenvolvimento das suas emoções e autoestima.

Todo o relacionamento interpessoal só sairá fortalecido se soubermos geri-lo da melhor forma. O confinamento pode levar a momentos de maior tensão, maior stresse e cabe-nos a nós enquanto adultos gerir as emoções e encaminhá-las para a parte positiva que tudo isto pode ter. Realizar o maior numero possível de atividades lúdicas em conjunto, conhecerem-se melhor uns aos outros e criar maior cumplicidade e afeto com aqueles que nos são queridos. Gerindo tudo com muita resiliência, amor e tranquilidade.

Marta Martins Leite, Psicóloga nas Clínicas Leite