Bob Dylan celebra 80º Aniversário

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O músico, compositor e prémio Nobel da Literatura Bob Dylan celebrou esta segunda-feira 80 anos. O artista que se confunde com a história da música norte-americana tem também um vasto currículo onde além do Nobel da Literatura tem um Pullitzer, um Óscar, o Grammy e o Globo de Ouro.

Aquele que é talvez o maior génio vivo da música norte-americana, Bob Dylan, sopra hoje 80 velas. O seu gigantismo cancioneiro tem uma escala planetária há praticamente 60 anos. O mundo canta-o desde o início dos anos 60, quando surgiu jovem e irrequieto.  
 
O levantamento de dez razões para admirarmos Bob Dylan é uma tarefa fácil. Haveria muito mais razões para nos impressionarmos com este homem, que leva já 39 álbuns de estúdio. No início dos anos 60, Bob Dylan foi o menino-prodígio da renovação da folk que se fez sentir na ressaca do boom do rock & roll. Com um reportório próprio e um ritmo acelerado de composição, foi glorificado no Festival de Newport de 1963 e de 1964 e admirado por algumas lendas da música americana como Pete Seeger ou Johnny Cash. 

As frases fortes que faziam parar para pensar e refrães que eram lemas ou, melhor que isso, raios de humor iluminado, deram a Bob Dylan um estatuto de letrista de qualidade quase inalcançável, que se materializou décadas mais tarde no justo Prémio Nobel da Literatura. 

Bob Dylan não nasceu para cantar, pois não foi abençoado por uma grande voz. Mas foi à mesma para cima de um palco cantar. O importante era a criação de um estilo personalizado e a atitude, mesmo que à falta de um dom divino na voz. A paternidade do punk pertence a Iggy Pop e aos Stooges, mas muito antes do punk nascer, Bob Dylan tinha o mesmo conceito de contornar a debilidade técnica com o arrojo. Inconscientemente, Bob Dylan deu alento a muitos outros músicos para cantarem.

Uma das marcas distintivas de Dylan foi o uso da harmónica, numa estrutura metalizada que dobrava o pescoço e lhe permitia tocar guitarra ao mesmo tempo. Quando abria os lábios, era para cantar. Quando os semi-cerrava, era para dar trabalho aos beiços, a dançarem entre os vários orifícios da harmónica. Até 1965, era impossível imaginar Dylan sem a harmónica.

Bob Dylan não quis ser apenas o mensageiro folk beatificado pelos devotos das raízes da música americana. Com a invasão britânica de bandas aos Estados Unidos, o músico não ficou indiferente aos Beatles que lhe reacenderam a sua paixão adolescente pelo rock & roll. Quando Bob Dylan apareceu no Festival de Newport de 1965 de guitarra elétrica, foi apupado por muitos dos seus fãs. Este espírito reacionário contra a mudança sonora de Dylan também inspirou protestos nas digressões europeias do artista nessa altura. Mais do que músico folk, Bob Dylan era um músico, desligado de afunilamentos em géneros. O tempo dar-lhe-ia razão no espaço de meses.

Um misterioso acidente de mota em julho de 1966 encerrou um período de anos loucos e stressantes, de grande pressão e exposição. Bob Dylan iniciou então uma inspirada reclusão e um recolhimento musical no country e consequente recurso feliz a instrumentos como a guitarra pedal steel. A voz tornou-se mais grave e menos anasalada. 

A rutura conjugal com a sua mulher Sara inspirou-o para várias levas fortes de canções a meio dos anos 70, incluindo os seus álbuns aclamados “Blood on the Tracks” e “Desire”. Mais uma vez, a música foi uma boa confidente. Os fãs agradecem. 

Se fizermos um levantamento de alguns dos seus melhores álbuns, não os encontramos só nos anos 60 ou nos anos 70, há várias obras suas muito fortes nas décadas subsequentes, como “Infidels” (de 1983), “Time Out of Mind” (de 1997) ou “Modern Times” (de 2006).

A amálgama indistinta de géneros americanos que Bob Dylan parece incorporar sem esforço numa só canção – blues, rock, folk, country, espirituais negros – é um lindo brotar florestal com as raízes bem audíveis.

É difícil encontrar alguém mais premiado e condecorado que Bob Dylan. Além do Nobel da Literatura, já recebeu em mãos o Nobel oficioso de música (o Polar Music Prize), um Óscar, um bom número de Grammys, a indigitação no Rock & Roll Hall of Fame e condecorações oficiais de vários Estados, incluindo o do seu próprio país – o músico foi medalhado pelo então Presidente, Barack Obama. O mais engraçado disto tudo é que Dylan odeia receber prémios e só o esconde quando não vai às cerimónias – como ocorreu com a entrega do Nobel da Literatura.