As pontes que há em nós

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Foi notícia que passou com alguma indiferença pelos órgãos de comunicação social: a cidade de Praga comemorou o fim do confinamento, com alguma pompa e circunstância, com um mega-almoço na vetusta e histórica ponte Carlos, com vista privilegiada sobre o rio Vltava.

Uma ponte tem sempre a importância de ligar duas margens, dois lados, ultrapassando distâncias com alguma altivez e ironia. Em alguns casos, a ideia da ponte toma igualmente a forma de um vínculo que nos relaciona com o passado. No evento referido, por exemplo, prevaleceu quase de imediato, a evocação de memórias relacionadas com o almoço que teve lugar na ponte Vasco da Gama, semanas antes da inauguração da Exposição Mundial de Lisboa, de 1998. 

Acontecimento único e inesquecível, à boleia dos oceanos colocou-nos a par com o conhecimento do mundo global no seu ambiente mais glamoroso e festivo que, até então, muitos não tinham tido oportunidade de contactar.  A profusão de idiomas e de sotaques que nos foi permitido escutar e a serendipidade de costumes e culturas que ressumavam em cada canto de um qualquer pavilhão transportavam-nos para uma realidade que trazíamos escondida no íntimo dos nossos melhores sonhos. 

Foi uma época de abertura a uma outra verdade, a um outro tipo de conhecimento, a outra sorte de necessidades. Com o advento do Euro, que se consubstanciaria dali a três anos, democratizou-se a vontade de viajar e as pessoas , na sua generalidade, substituíram pouco a pouco o supremo sonho de comprar casa e carro pelo desejo do conhecimento sincrético do mundo, dando asas a uma melhor compreensão do que são , como vivem e como pensam todos os outros que nos excedem. 

Foi dessa maneira que me deparei, em 2003, na ponte Carlos, em Praga. Um ícone da cidade, que já tinha entrevisto, sem um interesse por aí além num vídeo dos Inxs em 1992. (never tear us apart) https://www.youtube.com/watch?v=_VU9DjQpvMQ

Tive oportunidade, então, no meio da multidão de turistas e de inúmeros músicos que nos presenteavam com o seu dom, de passear sobre o seu velho chão, repartindo o meu olhar entre o frenesim entusiástico dos passantes e o calmo deslizar das águas do Vltava.

E foi no meio dessas águas, a bordo de um barco de cruzeiro, ao ritmo do enchimento e vazamento das suas eclusas e ao som de um velho tocador de acordeão, que a vi, majestosa e sublime, dominando a paisagem da capital boémia. A estátua de S. João Nepomuceno lá estava, com o mesmo ar sereno e o mesmo relevo de bronze que todos devem tocar, se tiverem um desejo íntimo de regressar àquele lugar único, onde agora se celebra o retorno a uma vida quase normal.

As pontes são essenciais à vida. Permitem-nos outros lugares, mas mesmo que ninguém se dê conta, o melhor dessas descobertas é o conhecimento que passamos a ter de nós mesmos.

Adérito Vilares